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Distração.

Distraída estava, distraída andava, mas era quase sua tentativa de perfeição que a prendia. Tudo olhava pensando ser exata, pisava no chão evitando as rachaduras por hábito, pulava as poças, apoiava-se no muro, deslizava os dedos pelas grades dos portões para fazer barulho. Achava que estava certa. Mas estava distraída. Horários rigorosos, sentimentos moldados, expectativas frustradas. Tentava. Era o certo afinal, acreditava. O que era aquilo que deixava sua boca seca e um aperto no coração? Desconhecia. Se não houvesse cura, conviveria com isso. Decerto continuar firme em tentativas frustradas de acerto, um dia compensaria – pensava. E ia. Cedo, tarde, noite e madrugada. Até o sono era monitorado inconscientemente, enquanto não dormia. O descanso era apenas uma ilusão, porque se achava uma distraída.

De tanto tentar fixar-se, sucumbiu. Foi como uma folha solta que o vento sopra e de leve leva e quando menos se pensava, surgia. Ávida, a vida descobriu, quando finalmente sem querer se distraiu. Agora era de verdade. De se importar desistiu. Desistiu de esperar pela emoção, desistiu de recolher os cacos só porque se espalhados os outros veriam, resolveu deixar ao léu o coração que já se resguardava apenas à função de bombear o sangue. Agora, nessa distração havia mais sentido do que nas tentativas perfeccionistas de ser modelo aos olhos alheios. Agora, ela descobrira que ao ser ela mesma, havia em quem despertara admiração.

Desnuda de travas, jorrou sentimentos e flertou com o desconhecido. Aquilo que deixava sua boca seca e um aperto no coração continuara, mas transmutara de motivos. O coração apertado agora batia forte, mais pela ansiedade da espera do que pela exigência da angústia. Descobriu que se distraindo, veria mais, prestaria mais atenção, sentiria mais gostos, provaria mais delícias do que quando pensava estar atenta. Percebeu que na ânsia de acertar, tudo parecia dar errado, mas quando se deixou levar, seus rumos encontraram um sentido. Seu coração encontrou uma razão. O que sempre buscara sem perceber, veio a seu encontro, quando havia desistido.

O que era um quadro cinza e desbotado ganhou um colorido animado quando seu peito abriu. Pincéis e tintas figuravam em sua doce desistência de ser infeliz. Agora, não esperava mais. Nem pedia. Nem ficava atenta.

O telefone que não tocava enquanto esperava, lhe causava delírios ao soar no inesperado. Os recados tão aguardados que nunca chegavam lhe emocionavam quando ela os via chegar de supetão. As flores que um dia sonhara receber, e pedia…surgiram em sua frente. Não, não por meio de a quem pediu. Mas por meio de quem jamais esperara. Foi quando parou de observar, de procurar, que encontrou.

Aprendeu que deixando o rio seguir seu fluxo era mais fácil de navegar. Que não poderia segurar os acontecimentos com as mãos. Nem forçá-los com uma alavanca de desespero. Simplesmente passou a respirar e a sentir os perfumes dessa vez. Fosse o que fosse, era o que queria. Livre, ave, sol, sonhos – a realidade abrindo as cortinas. Era a vida se mostrando enquanto ela acreditava que amar era coisa de quem tinha sorte. E era.

*

Enluarada

*

“Há impossibilidade de ser além do que se é …
a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais….” – Clarice Lispector.

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