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Uma vida.

maça

O ar se torna rarefeito quando meu coração trepida a galopes, lidando com minhas ilusões.

Meus lábios deslizam doces pela superfície da maçã, tão vermelha e desejável,

enquanto um arrepio percorre os caminhos de minha nuca,

traduzindo os devaneios das palavras não ditas.

Sinto os dentes, mordidas suaves me tocam levemente,

e o  sorriso gracioso se esconde nos lábios que passam a me arder por onde traçam sugestões,

da divisa de meu rosto, até a curva de meu ombro…

Eu puxo o ar, é o fim do primeiro ato.

Descem as cortinas da noite de sono,

Já é dia e o amanhecer desponta abrindo as janelas do céu claro.

A realidade da vida me toma de assalto, quando me assusto,

meus olhos se defendem da luz bem vinda,

e já não posso mais sonhar.

Eu desejaria ser diferente, mas tão volátil quanto minhas ilusões, é meu coração.

Minha razão me arrasta à força para a rotina,

mas por saber que tenho só uma vida, meu peito anseia o proibido, o livre, o alado.

Quero os céus que dizem ser dos anjos, quero voar livre ao encontro de meus desejos.

Quero a liberdade dos infortúnios de um amor deposto.

Quero ser um sorriso esperado, e a esperança em um olhar.

Quero olhar para trás e ter do que me orgulhar,

quero olhar o agora e ter em que me espelhar,

mas sobretudo, quero olhar para frente e saber que no horizonte,

minha alma nasce a cada dia, como uma promessa no infinito,

como um desabrochar florido, minha alma sendo mais.

Minha alma é soma, precisa de possibilidades incalculáveis.

Minha alma é adicta de paixões incontroláveis.

Minha alma é refém de palavras desmedidas.

Tenho que enfrentar os desafios de mais um dia.

Uma vida, e cada segundo conta.

Ao meu lado, numa bandeja, descansa a maçã, vermelha, desejável.

E é nela, que meus lábios faceiros, em meios sorrisos, deslizam doces.

*

Enluarada

*

 

As palavras são imortais.

Em meu peito meu coração bate louco. Tento encontrar-me, mas não consigo, perco-me.

É que na verdade não estou aqui. Porque estou aí, amando-te.

E presa em lembranças doces, flutuo até ti e as palavras fluem de dentro de mim.Por isso escrevo.

Escrevo sobre a saudade que sinto de sua graça e docilidade, saudade de suas frases sempre tão certas, de suas palavras tão afáveis, de sua voz a mim necessária.

Saudade da sua risada gostosa, de seu jeito de pedir-me as coisas, de fazer-me ceder.

Saudade de como me fazes rir e também chorar lágrimas de emoção.

De como revirastes meu íntimo despertando meu desejo.

Como encontrastes no fundo de meu eu os mais doces sentimentos, e fez-me sentir mais mulher, mais humana.

Reacendi, me descobri. Reencontrei meu chão, meu capricho, minha alegria e inspiração.

Tocou-me fundo sem querer, e agora meu coração está feliz. Meu mundo voltou a girar, minhas imagens tomaram cor.

Surgiu qual anjo em meu caminho, como que caindo em um lugar improvável, é certo. Mas ainda assim acalentou-me com suas asas e curou-me.

Estava em um abismo e sem querer encontraste-me, estendeu a mão e puxou-me.

Ao mesmo tempo enlouqueceu-me em uma estranha e gostosa insanidade que faz bagunça dentro de mim arrebatando meu coração.

Mesmo distante, a solidão não me aflige, pois não me sinto mais só. Carrego suas palavras em meu coração. E quando enfrento tempestades tem sido mais fácil me reerguer.

Dizem que as palavras tem um grande poder e as suas, a mim se tornaram imortais. Marcaram em meu coração, tomaram os meus pensamentos. Trouxeram-me esperança. E agora é com carinho e ternura que constantemente me lembro de ti.

Queria poder lhe dar o mundo, mas tenho apenas meu universo atravancado. Meu coração, este eu não lhe dou. Não posso lhe dar o que já possui.

Então, a mim, resta esperar o tempo passar enquanto sonho com o momento em que poderei entregar-lhe o que conquistaste por mérito: todo meu amor.

*

Enluarada

*

Ao som de  Bee Gees – Words Jota Quest – Palavras de um futuro bom.

Metamorfose

fada039

Em tempo, não tão tarde assim na vida descobri que é possível sair da inércia emocional, e porque não dizer atraso emocional. Muitas vezes o que precisamos é sair do casulo. Sempre tive certeza de muitas coisas na vida e existem coisas imutáveis para mim. Porém, algo que parecia impossível a mim mudou, contrastou significativamente. Acreditei a vida toda que jamais poderia saciar dentro de mim o desejo de valorização. E mais, ouvi isso sequencialmente de algumas pessoas que para mim tinham certo grau de importância em minha vida. Começando por meu progenitor que fazia questão de me reafirmar que estava fadada ao fracasso. Fracasso emocional, fracasso físico, fracasso profissional. Cedo na vida me uni a única pessoa que acreditei gostar de mim de alguma forma verdadeira. A essa pessoa entreguei meus melhores anos, minha abnegação e anulação. Trapaceei minha consciência na tentativa desesperada de fazê-lo feliz e de ser feliz. Todo meu altruísmo e esforço de nada valeram ao perceber que estava tentando alcançar o vento. Um esforço unilateral. Até hoje está além de minha capacidade compreender como alguém que afirma lhe amar não consegue provar e demonstrar isso da mais simples forma. E a frustração veio certeira, num momento em que eu já não encontrava mais forças para sentir prazer em qualquer atividade da vida. Desisti de lutar, de usar minha criatividade, de conversar, propor, desenhar os fatos. A vida se tornou um marasmo e emaranhado de dissabores. E ao passo que tento me libertar de um relacionamento que me aprisiona, busquei na escrita e na leitura uma fuga provisória desse pesadelo. Envolvi-me em um casulo.

Quando me sentia uma simples larva, enclausurada em minhas emoções e negativismo, certa de que seria impossível alguém ver algo de bom em mim – e ao mesmo tempo lutando para dar o melhor de mim para as pessoas que de mim necessitam – algo súbito e inesperado mudou radicalmente minha forma de enxergar a vida. Foi como um anjo enviado para me presentear, aquecendo o casulo com seu hálito em forma de palavras e gestos singelos, me fazendo enxergar que não preciso ser simplesmente essa larva inerte e presa, mas que posso me transformar e me libertar. Alguém que me encontrou da forma mais improvável, e me refez, conquistou e valorizou da maneira mais sublime o pouco que pode conhecer de mim. Não estou exagerando em dizer que foi um divisor de águas. Decisões importantes já estavam tomadas dentro de mim, mas eu não tinha forças, não tinha coragem nem ânimo para executá-las. A experiência mais extasiante que pude experimentar foi sair desse casulo, dessa clausura emocional e ver que além de me sentir bela, de saber que tenho valor para alguém, me senti livre. Vi-me capaz, me senti real. Irônico, mas verdadeiro. É impressionante como pequenos gestos, se tornam grandes e é inacreditável como podem mudar radicalmente a vida de uma pessoa sensível como eu. Qual borboleta recém formada, ainda não posso voar. Mas enquanto as asas ainda não secam e se estendem, sigo tranqüila, mais feliz, com a certeza de saber que tenho valor sim, e ninguém nunca mais me fará acreditar no contrário. Em breve estarei pronta para alçar vôo, e se me for permitido darei tudo de mim para retribuir a quem me fez tão bem. Olhando em seus olhos poderei dizer tudo que emana de meu grato coração. Se não for possível, se os caminhos não se cruzarem, ficarei na certeza de que de qualquer forma foi válido, porque muito de mim mudou para melhor, e ao voar livre lembrarei sempre e pedirei sempre para que a felicidade seja a senda dessa pessoa maravilhosa. Mas ainda me resta a esperança de um dia nos encontrarmos.  Porque não existe liberdade sem amor. Nem amor sem liberdade. Nem metamorfoses totalmente livres de dor e de espera. Mas todas elas valem a pena!

Ao som de Butterfly – Mariah Carey , porque de certa forma todos somos como borboletas.