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Universos transbordantes.

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Quando seus lábios fartos me tocaram pela primeira vez, senti como se uma chama ardesse em minha clara pele, e por onde passava, era como se um raiar de sol percorresse a areia fria da manhã, como quando o amanhecer surge beijando o corpo do mar desde os pés do horizonte, até a boca nas ondas que se desmancham, entregues ao seu calor.

Me despi em seus braços, desnudei sonho por sonho, desejo por desejo, anseio por anseio.

Havia noite clara em minha superfície, lua cheia que eu era, superfície que ardia a cada toque dos dedos, a cada intensidade do beijo, a cada respiração profundamente ofegante.

Corpos trêmulos, tímidos, alvejados pelo êxtase do deslizar das mãos – pernas, costas, seios nuca, – e meus cabelos cativos em suas vigorosas mãos, dançando entre seus dedos enquanto pesavas sobre mim.

Ousei brincar com carícias em seu peito, enquanto o perfume da curvatura de seu pescoço me remetia aos jardins do doce prazer. E na ardência dos beijos, que se perdiam e se reencontravam, que de entre os lábios fugiam para outros hemisférios, mordi de leve tuas costas macias, percorri com vigor do início de tua face até o final de teu ombro, no intuito de arrancar-te gemidos, ofegâncias e delírios.

Encontrei teu prazer. No âmago teu, toquei e segurei com uma delicada firmeza, senti o pulsar desejoso de estar dentro de mim.

E os lábios se ardiam, entregues, mistos, os olhares se encontravam e se perdiam, só para se procurarem novamente.

E no momento do pertencer, deslizei-te para dentro de mim, vagarosamente como quem abre as pétalas de uma flor, até te sentir por inteiro, mergulhado em mim como o sol do crepúsculo mergulha em seu poente.

Te fiz oceano – imenso, jorrando vida, enquanto eu aturdida, sentia meu gozo misturado ao teu, indo e vindo, como as ondas, ora suaves deslizando ao raso, ora profundas, quebrando na turbulência do derradeiro escoar do êxtase.

E assim, se fez o amor. E assim, se fez a entrega. Em minha mente, você, simplesmente único. Em teu corpo eu, docemente cálida.

Era chama, raiar de sol, areia, mar, horizontes, infinitos, universos transbordantes que cabiam apenas ali, em nós.

*

Sih

*

Não sou dada a esquecer detalhes.

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Minhas primaveras.

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Eu literalmente nasci na primavera.

Talvez por isso, eu tenha sonho de flor.

Mais uma primavera está se passando e depois de 38 delas, depois de florir e ter de me despetalar,

passar pelo frio, pelo árido, fincar raiz, dar sementes e frutos,

creio que chegou a hora de me dar ao luxo de definir meus desejos, buscar meus sonhos,

respirar aliviada a alegria da vida, sem me cobrar, e sem ser cobrada.

Esse ano não vou festejar essa primavera.

Vou ficar reclusa em meus pensamentos.

O único presente que quero, eu peço ao universo, a Deus, ao criador, ou a quem quer que olhe por mim lá de cima.

Quero ser livre, quero que até as redomas subliminares sejam tiradas de mim.

Quero respirar sem sentir essa ansiedade no peito, sem sentir culpa.

Aliás o fim da sensação de culpa, eu quero no topo da lista.

A pior coisa que existe é essa auto condenação que a gente desenvolve,

porque os outros querem nos definir, porque nos tiram o direito de escolha,

sem haver um julgamento duro.

Quero aquela liberdade – não, eu quero o que a Clarice queria:

“Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.” (Clarice Lispector)

Quero a inocência sincera de uma criança, a disposição de um adolescente e a sabedoria de um monge idoso.

Eu preciso.

Quero recomeçar, como se minha história ainda estivesse em branco.

É assim que eu quero me sentir, um livro ainda a ser escrito.

Quero conseguir cada vez mais me importar menos com os dedos alheios que me acusam.

Quero conseguir ser eu por mim mesma, ser completa, alma, razão, coração.

Quero também, doses transbordantes de paciência e de tolerância,

Quero temperança e tranquilidade para aceitar o que tiver de ser,

quando minhas decisões gerarem as devidas consequências,

quando o meu plantio brotar,  vou regar e cuidar,

e se por acaso, quando chegar a nova primavera, eu não tiver flores,

quero ter uma dose extra de coragem, para arar novamente o solo e plantar outra vez.

Acima de tudo, eu quero de presente, a possibilidade de sentir da forma mais plena possível, o amor em meu coração.

Eu creio que, ainda não sei o que é amar, não verdadeiramente, mas creio também que não seja de todo impossível para mim.

De qualquer forma, quero uma explosão de emoções que me impulsionem para uma evolução nessa nova fase de minha vida.

Agora…

EU QUERO A VERDADE

EU QUERO A CERTEZA

EU QUERO A CONCRETIZAÇÃO.

QUERO IR À LUTA,

SEM ESTAR À SOMBRA DE NINGUÉM,

E NÃO VOU ACEITAR MENOS DO QUE A VERDADE.

NÃO VOU ACEITAR MENOS DO QUE EU REALMENTE ACREDITO QUE EU VALHA.

e hoje…

peço aos céus que me cubram de paz, que acalentem meus dias e que guiem meus passos.

Porque eu sou como uma flor de primavera – frágil ao se abrir, doce ao se colher,

inquebrável nas tempestades e infinita ao se geminar.

Mas se tentarem me ferir, eu tenho espinhos também.

*

Enluarada

*

Sou.

Sou maré feita de lua, ora alta, ora baixa, ora onda que se encaixa no vão da areia de um renascer.

Sou o vão também. E areia. Vão do querer, o espaço entre o desejo e o beijo, areia do tempo, corrente entre vidros, despejando momentos.

Sou o transbordar da paixão nesse mar que revolto espalha mistérios, a música que o silêncio canta, a melodia da maresia, dançada pelos ventos.

Sou os contos e mitos, os ditos transcritos, o que puxa para o fundo e eclode em vida, sou a certeza e a dúvida, a destreza no lutar.

Sou teus olhos querendo brilhar, o deitar e o levantar, teu encontro com a paz, teu desvendar.

Sou a barreira do medo, que transformo em brinquedo ou em canção de ninar. E afasto de mim o pavor, o torpor, pois sou…

Sou cartas em garrafas, a ti destinadas, jurando que chegarão, como um raio de sol em meio à escuridão, guiando meu chão, pelo sim, pelo não.

Sou dia, em luz acesa e calor, sou noite, em espera, refletindo luzeiros, coletando estrelas e com elas brilhando.

Sou as belas asas da libertação, sou segredo aberto ao coração, o desvelo ao início de mim, sou zelo.

Sou procura, a tua, que nessas marés se mistura, e ainda vem e vai. Mas sou ainda mais.

Sou o que busco ser. Sou encontro, mesmo que por acontecer, sou abraço, carícia, euforia, emoção.

Sou descoberta, sem negação, maremoto e furacão, por ti sou explosão e aventura, sou a dor e a mesma que cura, sou fera, sou mansa, sou dócil, sou criança.

Sou a esperança do enfim, sou a entrega de mim, a um sentimento que é.

Sou verdadeira, escorro inteira, qual cachoeira nos penhascos onde me encontro, e sou eu em você.

Sou tudo, enquanto puder amar. O eternizar. Porque o amor nos faz ser. Mesmo sem querer.

*

Enluarada, em 23/02/2010

*

 

“Ah, esses versos meus…tão seus…”

Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Ficou prá trás
Também o que nos juntou…

 

Ainda lembro
Que eu estava lendo
Só prá saber
O que você achou
Dos versos que eu fiz
Ainda espero
Resposta…

Desfaz o vento
O que há por dentro
Desse lugar
Que ninguém mais pisou…

Você está vendo
O que está acontecendo
Nesse caderno
Sei que ainda estão…

Os versos seus
Tão meus que peço
Nos versos meus
Tão seus que esperem
Que os aceite…

Em paz eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante…

Meu silêncio do agora.

Não quero mais falar de dor,

nem quero mais falar de amor,

por enquanto,

só o silêncio do agora.

Não quero mais saber de tempo,

nem sentir que há espera,

tudo é quimera

e minha alma implora

arrego, sossego.

Frio, escuro, vazio,

cinza, seco e febril,

faz-se a geada e noutro dia

a relva de mim queima no gelo.

Não me importo mais.

Se me fecho, e os olhos também,

é porque sou refém

de sentimentos por mim criados.

Sou aquela menina

com a flor na mão,

chorando porque murchou.

Será um dia riso,

do outro dia nem preciso.

Só quero agora escutar de longe

sussurros do nada,

ter minha alma lavada,

despida e banhada

da culpa, do pranto, de tanto…

de tanto saber que a saudade,

me invade,  invade e invade,

mesmo antes de ser,

mesmo antes de amanhecer.

São vãos por onde escorro,

o chão onde me sento,

onde me contradigo, onde aguardo.

Palavras nesse vácuo onde quero,

onde sei, onde pensei, onde hei

de reencontrar-me.

Quem sabe.

*

Enluarada

*

Eu quero escutar meu silêncio. Quero respirar o ar das minhas palavras que me escoram nesses segundos que me singem de inércia. Nada posso fazer, só deixar o tempo escorrer.

Amor é para sentir.

Vou sonhar-te.

Sonhar-te noite.

O frio é açoite,

teu calor cura.

Beijo-te delírios,

peço-te afagos,

lembro-te amado.

Saudade pura.

 

Vou pensar-te.

Pensar-te aqui.

Inventar-te é vício,

Se há resquício,

Desejo eclode,

Paixão explode,

Sentimento é forte,

Do fim ao início.

 

 

Vou esquecer-te.

Esquecer-te dentro.

Coração que bate

Em toda parte

Bombeia-te, espalha-te.

Do meu alvo és centro,

Dos lábios encontro,

Eterno pensamento.

 

Vou chorar-te.

Lavar-te de mim.

E fugindo enfim,

Sei que há o retorno.

Porque quere-te é simples,

Sonhar-te é alma a fluir,

esquecer-te é tolice.

Amor é para sentir.

*

Enluarada

*

Quando me arderão teus beijos? Meus lábios te pedem. Quando serão tuas mãos quentes a tecer carinhos por minha pele? Meu corpo te almeja. Que passem as eras, mas isto é mais do que verdadeiro. Meu amor se faz inteiro.

Assim que terminar a eternidade, eu me esquecerei de você.  – Toto – I’ll be over you

Que eu seja…amar.

E é no meu silêncio que escrevo com as letras do meu barulho, porque sou pobre de orgulho.

Porque me sinto tão Lua, tão distante, errante, de longe brincando com o mar e jogando a água com força na areia.

Daqui vejo muita coisa. Fico a pensar, o que será? Que assim seja…

E se o mar é amar, que seja em mim o mais intenso, vasto, aberto e imenso – oceano dos olhos meus que um dia desaguarão nos teus.

E se o céu é amar, que seja em mim o mais infinito, estrelado, explorado e mais bonito – asas de um coração que busca a tua direção.

E se viver é amar, que seja a vida mais plena, que a dor seja feita pequena, o que se viveu seja válido, que a luta faça sentido.

E se amar é luz, quero ser a mais forte, brilhar de sul a norte, quero te clarear, com meu calor te abraçar, teu desejo despertar.

E se amar é voar, que eu seja alada em liberdade – nessa força que me invade, que me faz flutuar – seja em pensamento, seja em poesia.

E se amar é escrever, teu corpo: meu papiro, minhas mãos: tinta e pena, minha alma rimando serena na vastidão do meu querer.

E se amar é tudo, que eu seja ainda mais, o universo, o mundo, o transcender, o além de mim, meu eu em você – o começo e o fim.

E se amar é AMAR, que eu seja Lua permanente, chorando o mar no céu espelho, no viver, no sonhar, na tua luz em vôo livre, no teu encanto, porque nunca, simplesmente – NUNCA – amei tanto.

*

Enluarada

*


Encontrei a música perfeita…

“I love you just the way you are,

So come with me and share the view,

I’ll help you see forever too

Hold me now,

touch me now,

I don’t want to live without you…”

(George Benson –  Nothing’s Gonna Change My Love For You)

Diário de uma flor.

Setembro

Tão pequena me sinto, e sufocada. Há terra em mim e o peso é grande. Um aperto no peito e sinto como se eu fosse explodir. Porém o meu desejo era que a terra se abrisse. Está frio, escuro e quase vazio. Vou fechar meus olhos…

Outubro

Ei, o que está havendo? Apesar do que sofri, sinto meus braços mais livres embora o peso ainda exista. Sinto um leve calor que vem não sei de onde, não sei a origem. Vou colocar minha raiz aqui. Sinto sede, a de amor. Ei, você que me deu água, agradecida. Quem é você que me aqueceu? Valeu! Estranho, mas agora posso respirar, é como se a minha redoma tivesse sido removida. Até que enfim senti a vida! Fantástico poder me mostrar. Vou subir à superfície e olhar!

Novembro

Uau, quanta luz! Quem é você assim tão brilhante e quente? Me fez crescer interiormente e agora minhas palavras desabrocham nessa troca de luz e calor. Faz assim, te dou o meu amor! Eu fico aqui, estou plantada, tenho raiz, mas sou livre enfim! Adoro essa tua luz em mim!

Dezembro

Impressionante como estão me admirando, como dizem que sou linda e ainda sou um botão. Deve ser meu coração, ele está tão preenchido que me dá viçosidade. É uma sensação tão única, penso até não ser verdade. Mesmo ainda tão fechada posso ouvir o som da distância. Logo quero me abrir, mas devo ter paciência…

Janeiro

Nublou! Cadê a luz? A água perece que secou. Só um pouco mais de amor…Ei nuvem, sai da frente, eu quero olhar! Não, não precisa estiar, afinal de rega eu vou precisar. Mas eu queria olhar.

Fevereiro

Parei pra respirar fundo, sentes? Há um perfume saindo de mim. Estão me chamando de jasmim e sorrindo vejo a luz e ainda sinto o calor. Viu o meu desabrochar? Conseqüência desse amar. É lindo poder alegrar, os corações tocar e percebi aqui dentro um sentimento forte se espalhar. Sinta meu cheiro, olha a minha cor! Enfim sou tua flor! Colha-me, por favor?

Março

Hum, pétalas. Uma caiu de mim. Ainda estou aqui, não compreendo. Juro que queria ir. Mas tudo bem, ainda assim apenas sentir a luz é bom. Oh, outra pétala caiu…isso dói aqui dentro, essa solidão. Eu só queria ouvir uma canção. Canta para mim?

Abril

Olho no chão ao meu redor e me vejo inteira ali. Não – não me vejo inteira, vejo os meus pedaços. Minhas pétalas…me sinto estranha, mas alguém me disse que havia de ser assim. Depois da deprimência antes do renascer, senti o calor a vida e a beleza, descobri minha natureza e escrevi a minha história. Agora vejo minhas pétalas desvanecendo, enfeitando o chão, e eu nem fui colhida, nem fui beijada. Apenas sei que talvez fui amada. Mas o mais estranho é que mesmo assim nunca me senti tão plena. Acho que é porque finalmente entendi. É que por mais solidão que haja – depois que se vê a luz do Sol a gente se acostuma a ser feliz. Porém, aos poucos se vai descobrindo nossa missão na vida, nossos dons e acaba-se entendendo afinal, que para produzir bons frutos e sementes na continuidade da existência, às vezes é necessário morrer por dentro um pouquinho…

*

Enluarada

*

Se eu não te amasse tanto assim, talvez não visse flores por onde eu vim…dentro do meu coração – Se eu não te amasse tanto assim – Ivete Sangalo.