A mulher em mim.

Petalas

Condiz dizer que sou menina e sou mulher.

Alma de criança, às vezes indefesa. Sempre brincalhona, sempre em surpresa.

Docemente curiosa – observadora ao extremo. Questiono, duvido, atrevo. Ante o novo enfrento o medo, estendo minhas mãos pedindo colo. Mando beijos, solfejos, gracejos. Diluo meu coração em crer sem restrição, confio, amo e por vezes me engano. Chorar é apenas dar vazão ao que inunda e transborda na infância retida em um coração de menina que ama incondicionalmente. Tropeço, caio, me ralo, mas de explorar não paro. Sou assim desde que percebi que estava viva. Enquanto me tornava mulher.

Felina, sinuosa, espreito na dúvida. Marcante, sagaz, multiplico meu instinto, intuo como se pudesse tocar acontecimentos. Tento ser forte, auto-suficiente. Mas tenho um que totalmente dependente. Essa fusão menina-mulher faz meu eu que pode ser doce e sensual, atrevida e casual, por vezes alegre, por vezes introspectiva. Uma mescla de definições, uma aventura em forma de pessoa. Busco me conhecer a cada dia, e sinto que é como explorar cada centímetro de um oceano. O que meu coração anseia avidamente contradiz com a razão. Nisso busco a transformação.  Pensei saber o que queria. E acertei. Eu sei. Apenas não sei totalmente quem sou, será uma eterna descoberta, minha coragem, minha capacidade. A capacidade de amar além de mim, da entrega. Da rendição. A capacidade da espera e de enfrentar o desconhecido. Sei que não posso segurar o tempo em minhas mãos, mesmo que tente, escorrerá pelos vãos dos dedos. Também não posso acelerá-lo. Tento desejar profundamente que no meu coração haja aceitação do que for e que possa ser transformada em felicidade toda sina e condição. Não vou dizer que não vou mudar, mesmo porque já mudei. Meu rio tomou outro curso.

O trecho do caminho que sigo a partir daqui será em passos lentos, pois tenho encargos. É certo que tudo que estiver ao alcance dessa menina será feito com carinho, dedicação, fluirá suave, mesmo quando difícil. E a mulher em mim dará a tudo razão e paixão, resignação. A obra de arte em que o tempo e o acaso transformaram essa etapa será mais que apenas uma pintura de uma vida, mais que uma paisagem marcada, terá o acabamento final moldado por minhas reflexões, pintado com as cores mais vivas que fluem dos meus sentimentos diluídas com lágrimas, misturadas no coração. Sempre gostei da arte. Mas a arte de viver cobra um grande talento, mesmo que no final surja o abstrato. Depois disso conquistarei uma nova tela e quem sabe um novo coração me ajude a descobrir, criar e esculpir de forma nítida e irretocável uma nova mulher. A mulher em mim.


“Deitada em minha rede com o livro sobre meu colo
em extâse purrissímo…não sou mais aquela menina
com seu livro, mas uma mulher com seu amante..!!”

– Clarice Lispector

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Um pensamento sobre “A mulher em mim.

  1. Sinceramente, achei incrível o que você escreveu. Eu li essa frase da Clarice ontem e hoje foi procurá-la e achei seu texto… maravilhoso. Me identifiquei com muitas coisas. Parabéns! (:

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